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"Se a miséria é o aguilhão perpétuo para o povo, o tédio é-o igualmente para os ricos. Na vida civil, o domingo representa o aborrecimento, e os seis dias da semana a miséria." - Arthur Schopenhauer, in A As Dores do Mundo.  
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"Eu nunca tive problema com o lugar onde escrevo, mas de uma tempos para cá isso tem me incomodado. Escrever no silêncio, na paz de um lugar calmo e alvo, sem paredes acolchoadas, claro, mas realmente solidárias a qualquer expressão de carinho. Paredes que passam calma, conforto, segurança. Eu escrevia no parque, ouvindo remix no quarto com o céu coberto de cor escura e densas nuvens, eu escrevia sem olhar para o relógio a censurar minhas palavras e rimas indignas, só atentava vez ou outra para um erro semântico ou ortográfico que por ocasião, minha dedicação extrema ao texto, tenha furtado a atenção. Acontece que agora eu estou escrevendo de dentro do banheiro, olhando para o vaso e vendo a água, considerada suja e de má índole, turbilhar em sentindo horário. Não tem nenhum sentindo, mas não sei se perceberam, não há melhor lugar que o banheiro. Copiosamente íntimo, o cheiro dele provém de você mesmo, o gosto que fica quando o ar bacteriano passa pela boca, é o mesmo gosto do suor do teu corpo, transformado em gotículas de ar, sim você ouviu bem, gotículas de ar, que estão cheias dos nutrientes que o teu corpo também expurga diante do calor, do abafado cômodo, das paredes lisas de azulejos portugueses ou, como os meus, naturais da minha região. No banheiro, que não tem escrivaninha ou caneta, tinteiro ou esferográfica, que não tem máquina nem papel, que não tem música alta, não tem som de blues, não tem ficha suja e nem nada produz, nas paredes que os jovens púberes passaram várias vezes tinta branca espessa, me recolho à pequena comodidade de ser escritor, silencioso nos versos, compositor sanitário, na essência da limpeza, forjando a metáfora da pureza que devem ter todos os versos brancos, brandos, lânguidos. A poesia vem ao poeta na porta de casa, dará tempo, sim dará tempo de ele chegar até o banheiro e excretar, rapidamente, os seus pensamentos ilhados dentro do corpo límpido." - Theu Souza
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Defining innocence is hell, after all that has past
Building new walls inside my eternal night
Although they took my heart and dried me up
Sometimes I still bleed…
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"o tempo 

entre o sopro

e o apagar da vela”

paulo leminski


Macaulay Culkin photographed by Harmony Korine
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"O tempo fica
cada vez
mais lento
e eu
lendo
lendo
lendo
vou acabar
virando lenda." - Paulo Leminski  
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Para Tudo

Para me curar da raiva, proferi um beijo na testa de quem gosta de mim.

Para descrever meu tédio, coloquei-o em palavras desprovidas de quaisquer linguagens.

Para acabar com a pouca vergonha do canteiro, tirei minha camisa e mostrei meu peito pro sol que, cínico, se escondeu por detrás da nuvem gorda que, ardida, emagreceu.

Para endossar minha tragédia, sorri estoico pro vizinho que, por preguiça de morar na mesma rua que eu, se recolheu em seu direito de não retribuir, não correspondeu.

Para me livrar da leveza da culpa vã, fugi do divã que o doutor me ofereceu, permaneço eu com todos meus dramas intactos.

Para acreditar em Deus, fui de braços abertos acolher o Homem, pois que sua fraqueza sempre me comoveu – pobre diabo.

Para evitar de não ser fraco, fui ser forte ao ponto de poder abrir mão do que tanto quis, hoje até que estou feliz, meu ponto fraco foi ter que sempre, sempre e sempre, lutar pra conseguir  hoje só reluto.

Para não ficar a ver navios, vim eu morar longe do mar, aqui não naufrago: me enterro é inteiro nesse chão, broto e dou muitos frutos proibidos, todos provam e se embriagam de pecado comigo – bom por demais viver.

Para não ficar chato, não mando notícias pra ninguém, ninguém há de saber muito de mim; um dia eu volto e conto tudo que não vivi: escondo tudo que viverei.

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como provocar um déjà vu

primeiro de tudo nasça algo diferente. dois exemplos: tome um copo de vitamina com o pé não usual. ou então gesticule um movimento totalmente estranho e novo combinando o corpo todo, inclusive usando a garganta da boca para falar um grunhido-grito impossível em qualquer língua. você precisa ter a certeza absoluta de que é o único no mundo fazendo este ato no momento. por que isto? ora, para provocar um déjà vu é preciso ter a garantia de se estar inaugurando algo novo, para si mesmo e para o mundo todo. lembre-se que este algo novo é puramente experimental, um ato que não serve para nada. além de provocar em você, é claro, a estranheza sensação do já-visto. tente isto em casa. repita o ato umas três vezes quatro vezes. tire qualquer criança da sala e cuidado, certifique-se bem se não há mesmo ninguém assistindo à cena (pois se alguém imitá-lo, já era. o procedimento vai por água abaixo). esteja atento também à linha tênue entre o comportamento obsessivo compulsivo e o procedimento de geração de um déjà vu. um exemplo: o transtornado repete atos mecânicos com conhecimento de causa, diagnosticado quase. já o experimentador de métodos alternativos de geração de experiências ridículas, faz a cena com a atenção de um samurai e ensaia bastante antes (para depois de experimentar o efeito nunca mais querer repeti-lo). tendo isso em mente, depois de feita a cena, vá fazer alguma coisa considerada útil pela sociedade ao seu redor. se esforce para esquecer o que fez, sem culpa. depois deixe a memória esquecida maturar na mente de longo prazo. não morra por uns longos 20 anos (lembre-se: se o óbito te matar o déjà vu não vai acontecer. ou você já morreu antes?). pronto, my friend! se você teve sucesso em esquecer a cena e passar desapercebido pelas causas da morte, prometo a você que seu tão inesperado déjà vu causal virá. ele vem sempre assim: durante uma bela tarde ou noite de sono com o estômago cheio, você despertará do seu inconsciente fazendo de novo aquela cena já esquecida, de uma forma meio sonâmbula-automática e meio consciente disto. essa consciência assistindo o ato sem interferir nele, é o próprio déjà vu: você sentirá disto uma estranheza aguda acompanhada de uma sensação absurda de: ´sério mesmo que isto já aconteceu comigo?!`

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pessoas congeladas

ainda se pode contemplar o bonito sorriso do rapaz 

ler sua reclamação acerca da operadora de celular
ouvir a música dançada no anteontem à sua morte
ver a fotografia da camisa nova, da comida boa, 
do cabelo que acordou bem no dia do acontecido
e que continuou assim bem vivo após a morte
no perfil virtual ainda ativo do rapaz que morreu 
e não deixou a senha salva em lugar nenhum.

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zero absoluto

Adriano gostava do inverno e refrigeradores. 

Estela gostava de Adriano.

O amor (cego de sol ) quis aquecê-lo
com flores vermelhas e outras cartas cálidas.
Adriano gostava de iglus.

Estela soluçou como um temporal.
Ele, não.

Talvez nunca chorasse, nem mesmo em segredo
E se,
eram cubos de gelo,
suas lágrimas.

Ehre

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(Anotação Pessoal)

Em qual reino ocultam-se as coisas partidas,

o tempo e o sonho?
Três cidades partem minha vida:
como não ser quebrada em espaços
em amor em eternidade
antes dos vinte e um anos?
Espasmos.
Viver é fragmentação.

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