Paranoia

Minha praxe monótona às veses inventa de saltar de bungee jump, e eu sempre agradeço aos céus por isso

o catador de latas não tem culpa da audiência que fornece aos entediados presos na janela do ônibus, aguardando o sinal abrir
o catador da Av. Duque de Caxias
que não falta uma manhã árdua de trabalho
de meias trocadas e mochila nas costas
tirando do lixo aquilo que um dia fora fartura a alguém

e limpa com cuidado cada peça
encara os passageiros do Igarassu-Macaxeira
como quem pergunta: e aí? qual foi? perdeu algo em mim?

eu encarei seu rosto enrugado e sujo
havia realmente perdido algo
e tive vontade lançar-me janela afora e gritar:
perdi a intolerância parva, seu catador, ela esvaiu-se em seus olhos

no mais, desviei o rosto, apoiei minha cabeça no banco e respirei fundo. O sinal havia acabado de abrir.

Anthonieta: desvairada, agoniada, urgente: um pedido silencioso de desculpas por todo meu desmazelo imbecil. 23/07/2014.

Ariadne perdeu-se por amor e eu me perdi por não ter te matado na hora certa

mas não ponho semelhanças em nossas histórias pútridas de amor, até por quê, és muito mais podre que Teseu e não há Minotauros para disseminar em nosso labirinto romântico, chulo e desinteressante

o lugar vago no lado esquerdo da minha alma foi composto para caber-te sob medida
como se fosse eu modelada por artistas dadaístas sentados em calçadas repletas de musgo e areia

mas a alma não têm lados
nem comprimento de área
altura e volume
e agora vejo o porquê de tomarmos qualquer bebida alegremente
sentindo eu a doçura dos teus olhos remelentos
e então depois chorarmos juntos numa mesma frequência melancólica e desusada

por que teu lugar é em tu mesmo
e eu não posso dar abrigo a ninguém além de mim

e se somos moradias monômanas
portadoras de um único quarto e cama
entendo que amar é mesmo aquilo de sair de si e morar no outro
assim como o outro arruma as trouxas e vai morar em outro
que toma um ônibus ao destino de outro
que não sabe se deve mudar-se também

queria que pudéssemos nos doar efetivamente a nós mesmos
e servir de abrigo certo em tempestades virais

mas o querer é algo que não se enlaça com muitos outros verbos em respostas satisfatórias

eu temo em ir parar num lar tão vagabundo quanto tua alma
e que doa mais que nossas desventuras
e que haja qualquer coisa além do resultado catastrófico da nossa breve soma

talvez por que o amor sugou minhas forças
e te extrair de mim tenha custado tanto ao meu fígado

talvez por que deveria eu ter te matado antes
quando sabia o que era coragem
e Los Hermanos não fazia sentido

não há mais jeito
procuro acalmar o peito
enquanto escorro
e te olho escorrer
entoando baixo entre sussurros cortados
Adeus Você

Anthonieta: desvairada, agoniada, urgente.

"Não sei, é como se fosse um pedido arbitrário da minha própria consciência: Refletir sobre o vazio, para ver se ele reflete algo. E ele reflete tanta coisa ao mesmo tempo que não dá para fazer uma síntese, retalhar nas folhas. O que as pessoas leem nesses textos não passa de uma porcentagem ínfima do que realmente se passa por dentro de mim, mesmo os escritos de forma totalmente factual. O vazio parece pequeno aos olhos de quem não o sente, mas os que o sentem, percebem que ele é paradoxalmente gigante demais para conseguirmos fazer pequenas análises, pequenas descrições, poucas deduções, por isso há essa dificuldade de descrevê-lo de forma curta. Os que tentam explicá-lo de forma ampla, com muitas vertentes, não conseguem alcançar a total compreensão de muita gente, porque até o vazio e os seus sinônimos são relativos: uns se dão bem com ele; outros, não. Uns conseguem entender e acham ele digno de reflexão; outros, não. Uns o acolhem e os carregam pela vida; outros, não. E há os que não tiveram chance de escolha entre viver cercado pelo vazio e viver de forma plena: os que foram predestinados pela natureza à injustiça da vida que proclama o ódio contra os que não sabem lidar com ela."Junior Lima.

uma hora
a campainha vai tocar
o telefone vai chamar
o jornal vai estar lá com a noticia estampada
eu deixei o recado na geladeira ontem pela manhã
eu vi o seu nome na lista dos aprovados
vai chover no domingo
o trem vai se atrasar
você vai partir e eu vou sumir
o abraço vai virar saudade
é tudo uma questão de tempo
com exceção da morte, baby
não há um “fim”,
apenas uma reta
com infinitos recomeços.

"Não há nada que já não tenha sido dito, e coisas parecidas tinham sido ditas por muitas pessoas, antes de Schopenhauer. E mais, o que estamos dizendo não é nem mesmo Schopenhauer autêntico. Não estamos afirmando que a morte é o único objetivo da vida; não estamos desprezando o fato de que existe vida, assim como existe morte. Reconhecemos dois instintos básicos, e atribuímos a cada um deles a sua própria finalidade."Freud em novas conferências introdutórias sobre psicanálise.
"

Já pensou como seria bom
viver um pouco fora do tom
e sair um pouco dessa prisão
deixar de lado toda essa ilusão.

Já pensou como seria louco
viver sem acreditar nas coisas que ouço
e correr sem ter pra onde ir
depois de tanto tempo tentando fugir.

Já pensou como seria viver sem essa ansiedade
apesar de tudo ter virado saudade
e acreditar que um dia tudo vai mudar
sem ao menos ter alguém pra ajudar.

"— wl

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Carlos Drummond de Andrade

"Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor."Carlos Drummond de Andrade 

Teu riso move o mundo de tal forma que eu imploro: ria mais.

Não segure quando sentires vontade de gargalhar por lembrar de quaisquer besteiras que for. Solte o riso, contagie todos ao seu redor, mesmo que a barriga doa, que a boca se canse, ria mais. Chore de alegria, esses minutos transformam a alma, limpam as dores, tornam o que é sublime, simples. Escorregue nessa onda sonora que é a gargalhada de alguém, se deixe levar até que percebas o quanto é gostoso deixar os dentes aparecer. Não lute contra o riso, poucos tem o dom de sorrir à toa. Neruda já dizia que teu amor podia lhe tirar tudo, mas não o riso. O riso é a essência, eu digo: ria mais. Não é preciso um motivo certo, basta apenas um olhar. Ria de cair, de pausar só pra respirar. Dizem que o riso é o antídoto mais poderoso contra aquela velha sensação de estar e nunca ser. Saia rodopiando pelo salão e me tire pra dançar e sem mesmo perceber estaremos indo em direção aos nossos sonhos. Perdido seja aquele que não ouviu as primeiras notas tilintando nos tímpanos da solidão. Encurtes as distâncias, capture quem você ama. Sincronize seu ritmo, esvazie seus pulmões e logo em seguida os recarregue com o alívio, sinta-se leve. Um dia sem rir é um dia sem luz. Ilumine-se! Jorre alegria no coração dos aflitos que acreditam num milagre não vindo, passe brilho reluzente de teu sorriso e mova o mundo. Ria. Ria agora por motivo nenhum. Ria por esse texto. Ria pelos próprios tombos. Tu vives, por isso digo, ria. Ria de alegria. Ria pelo mundo. Ria. Vai. Ria mais.

Nathália Rizzo e Elisa Bartlett.

"Eu não sou mais como antes. Eu mudei. O traço ficou mais rude, mais tosco e o cenário mais real, menos imaginário. Levei um choque de desesperança, mortifiquei os poros no ato da escrita, maltratei a chicotadas os sentimentos mais puros da minha estratosfera. A tinta está mais espessa, misturo nela a terra que se acumulou nos meus sapatos durante a caminhada. Rastros empilhados em pinceladas firmes e concentradas buscando a silhueta perfeita da mulher de seios errantes e face desintegrada. No fundo o horizonte do mar se desdobra indicando a rota para o infinito. Nas mãos, rosas despetaladas cobertas de sangue, um contraste catastrófico e fascinante. Os olhos vermelhos entupidos de álcool sobre a tela inquietos e desesperados choram o mundo desencantado e dilacerado. As pupilas estéreis dilatam as veias do coração. E não me resta nada, o que restou se explodiu, se foi, fui derrotada pela dor que se calou por um segundo. A respiração para e o pensamento esvaece. Mergulho na minha própria obra, dou um giro na tentativa de sumir. Depois de tempos fico sabendo que encontraram a minha alma presa naquela tela recostada na parede daquele quarto. Até hoje não sei se morri ou renasci. Eu só sei que eu não voltei mais ali."Elisa Bartlett.

são esses teus olhos, menino;

são esses teus abismos
que me dão sentido.

[peito místico]

quero sentir teu gosto