Como alguns sabem, na madrugada ou manhã do dia 22/08 excluiram meu antigo tumblr (oespelhodenarciso) e como quebra, excluiram também o meu outro (18poesias)… Conversei com algumas pessoas e elas me incentivaram a voltar e mesmo com receio, cá estou eu novamente… Não tenho a maioria dos meus textos e/ou poemas do 18 poesias, mas vou me esforçar para reconstruir. E sejam bem vindos, de novo!

Essa angústia entra em colapso dentro de mim a cada quatro anos, os fundos monetários mal distribuídos me fazem sofrer por esse povo que já sofre tanto que mal arranjam forças para sofrer por eles próprios. O sol invade a janela, mas já não diz bom dia – nunca é. Os líderes se escondem em seus aviões, com poltronas reclináveis e egos cheios de grana lavada – ninguém é por ti, neguinho. As eleições são apenas dias de feriado nacional, o que é ortodoxo passa pela janela e se esvai. Aqui só se é o que dá pra ser, e sendo assim, tenta-se viver. 

santss.

Atmosfera

Sempre achei que o lado de lá era melhor
qualquer lado,
menos aqui.
Menos em volta da casa,
menos em volta de mim.
A dor do intraduzível é descobrir
que o melhor lugar 
a gente leva dentro do peito.

voeidemim: Amor demais aqui, Duda ♥ +f

Ai que amorzinho ♥

Uma nota sobre notas:

A inexistência da exatidão numérica causou nosso infinito. Fiz das dízimas periódicas nosso singular poema. O senhor mexe comigo num sentido que não posso verbalizar. A ética me emudece, senhor. Perdoa-me. Perdoa-me pela minha inconsequência. Tenho mania de engolir o caos celeste para ter estrelas brilhando dentro de mim, isso já causou big bangs terríveis e ensurdecedores, e hoje já não me ouço mais. Sou gravemente surda para com meus próprios desejos e anseios e quando enfim me dou conta a existência deles, já é tarde demais, senhor. Já não há desvios de rota. Resta-me o sim, o não ou o talvez. Resta-me o navegar nas marés mais turbulentas ou nas mais serenas. E quando ocasionalmente me afogo, a água salgada faz de mim um náufrago embriagado de maresia. Entretanto, senhor, quando o sol me beija, quando o vento de acalenta, não há tsunamis ou bombas nucleares que destruam minhas flores. 

I.L.C.

Quisera eu ser tudo aquilo que penso ser o importante. E não podendo ser, fico na pretensão de querer — ainda distante. Sou oriundo de uma realidade comum do país; nasci em meio ao nada e dentro de tamanha criatividade. Vi homens chorarem de fome e de sede; ainda assim, eu os vi sorrindo da própria secura de seus horizontes e depois escreverem prosas, com um graveto e o barro do chão; sem saber escrever ou ler, só sentindo as palavras que se faziam riscos no chão. Eu aprendi que o encanto da existência não está em ter ou não meios de conforto ou requinte. O encanto está na sensibilidade que cada um tem, seja escrevendo versos em um caderno colorido e perfumado ou simplesmente em riscos no chão de lama. Aprendi a escrever com a vida, não houve escola melhor. Nos causos contados pelos homens desdentados depois de um dia de sol forte na roça. Na cantiga doce das velhas lavadeiras nas margens do rio e na reza boba das avós benzedeiras que rimavam pra curar toda a dor da fome e da sede. Entendi do amor com a própria falta dele. Quando nada se têm, só se têm o amor. Ali estava toda a minha força: na sensibilidade de não ter nada, na pobreza de pão e na grandeza de cultura popular. Fiz minha caminhada por mares mortos, saindo da seca distante pra desaguar na seca de concreto. “Não há mar em São Paulo, quem dirá amar…” Aprendi a escrever (na concepção burguesa da palavra) na tristeza da grande periferia da Zona Norte. Escolas escuras, zonas de guerra, calor e professores cansados de prosa. Mais fome e mais sede; a diferença é que agora estava eu cercado por favelas, mães precoces e mortes por nada. Descobri os olhos mais lindos do mundo e aqui estou coberto de versos famintos e sedentos.
Igor Casares, sob a face de um retirante esperançoso. São Paulo, 2014.

Não temo, és minha e a morte não leva 
Não peço, te tomo e te trago comigo 
Assim feito um verso sentido 
Porque és sonho, és mar e treva.

santss e vânia melo

sobre ser:
eu não sei

pó(eta)

A quantidade de luz no final desse túnel
durante toda viagem, apertado no canto esquerdo daquele carro veloz que cortava a metade da noite e os ventos. Quase todo percurso estivera eu silenciosamente durante os diálogos dos outros ocupantes, com os olhos perdidos na distância, adormecendo naquele descanso que almejo todos os dias quando chega hora do sono, todos os sonhos aos quais eu fugira nas últimas duas semanas desabaram em mim durante um curto período de uma vez só, como a água de uma represa estourada, os erros, os problemas e equívocos de diversas fases da vida se juntaram e se arrastaram comigo - eu tinha dezesseis anos novamente, estava deitado em minha camilha, naquela primeira noite em um casebre distante e desconhecido, blocos de concretos, zumbidos, e também cinco anos na primeira série - e treze, quando a mãe foi para o hospital e eu sentia uma falta terrível dela, apavorado com a ideia de sua morte, enquanto meu irmão se embriagava no quarto ao lado e eu delirava de terror. Sem conseguir dormir, decorando o nome dos planetas estampados na cortina do quarto. Era um cortina azul escura, ainda não conhecia Plutão e Marte ao qual meus olhos sempre brilhavam num fascínio inquietante, via as letras brancas impressas no algodão azul escuro e aqueles nomes eram um poema a invocar o senhor dos pesadelos, que aproximava sempre da minha cama usando cartola. Todos essas idades de uma vez, e também vinte anos, já com ficha em sessões terapêuticas o conflito entre esses períodos e locais contraditórios me fez encolher os braços, me encolher ainda mais naquele canto. A passagem da roda sob um buraco me fez levantar a cabeça encostada no vidro gelado e todo embaçado pela respiração forte, meus olhos vidrados e eles oscilavam inquietos. Recuei meu rosto do vidro olhando pra luz, ao ver que cheguei ao final do que não parecia ter. — Thomas Teodoro

Como alguns sabem, na madrugada ou manhã do dia 22/08 excluiram meu antigo tumblr (oespelhodenarciso) e como quebra, excluiram também o meu outro (18poesias)… Conversei com algumas pessoas e elas me incentivaram a voltar e mesmo com receio, cá estou eu novamente… Não tenho a maioria dos meus textos e/ou poemas do 18 poesias, mas vou me esforçar para reconstruir. E sejam bem vindos, de novo!

uma nova frente fria chegou esse mês, na tarde do dia 3 mais ou menos, o que me fez recorrer aos livros e cílios molhados: eu sinto sua falta. andorinhas sobrevoaram meu telhado numa densa madrugada, cochichavam murmúrios audíveis do meu quarto, me fizeram mergulhar nas cobertas: eu sentia sua falta. haviam viagens programadas para o final do ano, uma nova galáxia havia sido descoberta, os canais televisivos estavam focados nisso e eu em: quanto a sua falta ainda me faria falta. segunda, aula de português e eu percebi que em todas as conjugações talvez eu sinta a sua falta. e eu sentirei.

santss

transei com Drummond ontem a noite, no terceiro capítulo já estávamos suados. a vida primitiva me permitia tal concessão, eu gosto. eu gostei das suas exclamações e os vestígios da vida madura, da alma contrita, da sua armadura - que nem existe. ele sorriu algumas vezes, eu até sorri de volta, mais precisamente no meio do oitavo capítulo quando ele me declarou amor. amor de poeta é sempre uma sacanagem, mas nas almas vãs e vadias do mundo, quem não há de querer? e não houve o tom agudo, o sussurro impregnava as veias e vértebras que preexistem em mim, seguimos. dois meses depois, ao rubor do amor vadio que tivera, eu ainda o amava. esse amor de poeta, sempre sacana…

santss