Paranoia

através do 
barco engarrafado 
o sonho entra 
nos olhos do pequeno 

que com uma sensação 
de leve tempestade 
quer ser pescador 

sem saber que 
as tempestades vestirão 
águas desassossegadas 

de crescer 
e não conseguir 
manter-se grande

Eu gosto é da bagunça

da confusão de paixões deformes

da algazarra aleatória das estrelas

dos gritos sonoros de uma guitarra 

do beijo vagabundo de uma noite rala.

Eu gosto é dessa euforia desarranjada.

d.

Transo com estrelas
pra gozar em supernova
cataclismo cósmico
multicolor refulgente
maravilha flutuante
sobre um jardim
de astronautas vivos
e coloridos
eternamente suspensos
nem de baixo nem
de cima
cometas no café
planetas
no jantar

Faça poesia com meu corpo

“Todo dia ela faz tudo sempre igual…” e eu já estou girando pelo quarto, sambando bem miudinho enquanto você, deitado na cama, já rascunha os primeiros versos enquanto me fita procurando a linha tênue entre o êxtase e a loucura. “Todo dia ela diz que é pr’eu me cuidar e essas coisas que diz toda mulher. Diz que está me esperando pr’o jantar…” Eu te olho nos olhos só para ver o que você diz, o que faz ao perceber que o verdadeiro convite é está implícito e você me sorri torto, meio tímido, meio esperançoso. Você sabe que eu não nego fogo. Parar de sambar eu não consigo. Risque os próximos versos, venha fazer poesia comigo. A gente se ama ao som da voz do gênio. “Seis da tarde, como era de se esperar, ela pega e me espera no portão. Diz que está muito louca pra beijar…” Eu não tenho um véu, esconder meus olhos eu nunca quis, a volúpia está explícita, você repara como mexo os quadris. Eu volto sambando bem devagarzinho, te sussurro no ouvido a doçura que só consigo dissimular na voz. “Toda noite ela diz pr’eu não me afastar; meia-noite ela jura eterno amor e me aperta pr’eu quase sufocar e me morde com a boca de pavor…” A poesia ainda não acabou, o samba pode continuar debaixo do cobertor. Vamos fazer poesia, meu amor.

 H.Conrado

tem gente que enxerga na capacidade do outro a sua própria incapacidade

tem gente que por se sentir incapaz quer provar a inutilidade e incompetência do mundo

tem gente que despreza a vida

destitui a poesia

berra, chora, esperneia e no final se vanguardia

malditas almas sem cor

se suicidam no próprio vazio e querem sugar cada objeto animado, vivo, sadio

tem gente que nasce morto pra vida

eu amo
sozinha,
por mim
no
tamanho
do mundo
inteiro
que
obviamente
é só
e
meu.

"Sou declínio carnal afogado em mares de poesia renascida em peito morto. Borboletas mortas voando sobre o eco vazio das paredes do meu ser, que geme seu nome em todo canto. Dia vazios, sem sentido, do sol ao céu azul pra mim é dia sombrio. Exalo a solidão nos quatro cantos da cidade, me escondendo do calor do dia, no sertão do aconchego do meu travesseiro ocupante do vazio que me deixou, que cansa de morrer afogado nas minhas lágrimas agridoces todos os dias. Espero-te ainda no mesmo lugar, na mesma linha de trem com um buquê de rosas vermelhas todo fim de tarde esperando sua volta."Um vendedor de flores.
"No meu caos sentimental eu me calo, minhas ideias se contradizem desenhando um círculo perfeito no meu peito, um copo, um buraco, um ponto final. Permaneço ali calada com os braços dispostos para trás, embriagada no meu desequilíbrio mental. Ao meu redor não há janelas. Quando olho para cima, um outro círculo perfeito, o avesso de mim. Mais adiante a imagem catatônica de um céu repleto de estrelas, que traçam a quilometragem infinita entre meus sonhos e a realidade concreta da solidão. Dramático? Pode ser. Talvez eu carregue no meu sangue o minimalismo melancólico de Pujol e nas paredes de concreto do seu tórax somente consiga projetar meus dramas pessoais. E quem sabe, enquanto você se ajeita na cadeira do cinema da praça central, eu encontre, no meu abismo redondo, uma estrela mais brilhante que interprete minha alma sem críticas sentimentais."Elisa Bartlett
"Furos celulares
atômicos, catatônicos
de explosão vulcânica
e aquecimento desenfreado
que assola o solo infértil
e fura a camada de ozônio
num tufão de sentimentos,
sou tempestade
de amores chuvosos
numa casa repleta de goteiras."— Alexandre Lima | Amor chuvoso amor.

"Não é a arte que faz vogar os barcos rápidos com o auxílio da vela e do remo? que guia na carreira os carros ligeiros? A arte também deve governar o amor… Não abandona em meio caminho tua amante, desfraldando sozinho tuas velas. É lado a lado que se arriba ao porto, quando soa a hora da volúpia plena e, vencidos a um só tempo, jazem a mulher e o homem lado a lado. Foge ao medo que apressa, à obra furtiva.”

"o barulho das águas estralando no peito
o chacoalhar das embarcações
o suor das mãos desatando os nós
o deslizar do vento na atmosfera inquieta
o reencontro no abismo azul da (nossa) alma
o descobrimento de um novo ritmo
escala de tons diluídos da abertura na pele
que nos leva ao inusitado
o som das águas sendo cortadas pelo destino
insólito e fresco
a volta
a redescoberta do íntimo
inconstante
infinito
de nós." Elisa Bartlett.